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(teste)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A GRAÇA


A GRAÇA

SANTO AGOSTINHO

Propter eos qui hominis liberum arbitrium sic praedicant...
(Por causa daqueles que tanto defendem a liberdade, que negam... graça divina).

Introdução:
Nesta obra intitulada A Graça, Santo Agostinho desenvolve uma teologia pastoral e escriturística. O tema em questão é a Graça divina e a liberdade humana e os desdobramentos conseqüentes do mesmo.
 O contexto de produção do texto em questão apresenta uma tensão teológica entre os monges do mosteiro de Hadrumeto. Tensão essa que compreendia as afirmações neopelagianas de alguns, mas também, as compreensões extremadas acerca da graça divina. 
Os monges de Hadrumeto tinham em seu poder a carta de Agostinho ao futuro papa Xisto III, na qual ele apresentava suas refutações ao pelagianismo e suas convicções acerca da graça gratuita. Por não ter ficado claro para esses monges as afirmações agostinianas, o abade envia as dúvidas e pede esclarecimentos ao próprio Agostinho.
Dessa forma, o Bispo de Hipona reafirmará sua doutrina acerca da predestinação gratuita à graça, e rejeitará veementemente a doutrina semipelagiana. Esta última, apesar de ser condenada nos concílios da província de Cartago e da Numídia, ainda permanecia em discussão como é percebido na carta de Agostinho a Valentim: abade de Hadrumeto.

A GRAÇA E A LIBERDADE
“Portanto, se não existe a graça de Deus, como poderá salvar o mundo... e se não existe a liberdade, como há de julgar o mundo.” (p.12).

Santo Agostinho utiliza enfática e exaustivamente as Escrituras para rechaçar as heresias pelagianas, mas tem diante de si “uma questão dificílima e inteligível a uns poucos” (p.14) como ele mesmo define. Sendo assim, ele escolhe o caminho da moderação para alcançar uma resposta à altura do desafio proposto.
Agostinho diz: “[...] e assim não negueis a graça de Deus nem defendais o livre-arbítrio a ponto de torná-lo independente da graça de Deus, como se pudéssemos sem ela pensar ou fazer em ordem a Deus. (Jo 15,5) Sem mim nada podeis fazer.” (p.12).
Segundo o autor, os pelagianos acreditavam que a graça de Deus era obtida por méritos próprios, ou seja, as boas obras, as orações ou mesmo a fé poderiam levar àqueles que as praticavam a obter a graça divina. Ele se fundamenta em vários textos Paulinos para refutar tas doutrina.
(1 Co3, 21) Ninguém procure nos homens motivo de orgulho.
(1 Co 1,31) Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.
(1Co 4,7) Que é que possuis que não tenhas recebido, e, se o recebeste, por que haveria de te ensoberbecer como se não tivesse recebido...
Agostinho também evoca, mesmo que de forma incipiente, a doutrina do pecado original para afirmar a impossibilidade do ser humano de alcançar a graça divina por seus merecimentos. “[...] porque somente Deus pode distinguir o homem da massa daquela perdição originária de Adão, para torná-lo vaso de eleição.” (p.12).
            Outro e não menos importante ponto abordado pelo Doutor de Hipona é o da graça concedida por intermédio do batismo àqueles que ainda não são responsáveis pelos seus atos, ou seja, as crianças.
Para tanto, ele afirma: “Somente as crianças, que não podem ser responsabilizadas por suas obras, boas ou más, serão condenadas devido ao pecado original, se não forem socorridas pela graça de Deus no banho batismal. Todos os outros que, em uso da liberdade, acrescentar seus próprios pecados ao pecado original, se não são retirados do poder das trevas pela graça de Deus e não são transferidos para o reino de Cristo, serão julgados devido ao mérito original, mas também de acordo com os merecimentos da própria vontade”.
Agostinho novamente lança mão de um texto Paulino para fundamentar sua proposição: (Rm 2,9-10) Tribulação e angústia para toda pessoa que pratica o mal, para o judeu primeiro, mas também para o grego; glória honra e paz para todo aquele que pratica o bem, para o judeu em primeiro lugar e também para o grego.
Neste ponto, é possível perceber de forma clara a articulação entre teologia pastoral e Escrituras feita pelo autor em todo o texto. E isso, para reafirmar suas proposições iniciais acerca de convicções sobre a gratuidade da graça divina e suas implicações na liberdade humana. Para ele, a gratuidade da graça não exclui a prática das boas obras pela vontade humana, mas sim, possibilita a realização das mesmas. Esta declaração pode ser sustentada na afirmativa proposta por Agostinho: “[...] não deveis defender a liberdade a ponto de atribuir-lhe as boas obras sem a graça de Deus; e não deveis defender a graça de Deus a ponto de preterir as más obras, como se tivésseis a garantia da graça. Tal não permita a própria graça de Deus”.
(Rm 6,1-2) Que diremos então! Que devemos permanecer no pecado, a fim de que a graça atinja sua plenitude [...] de modo algum! Nós que morremos para o pecado, como haveríamos de viver ainda nele! (p.21).
Santo Agostinho concluindo suas afirmativas acerca da graça, relaciona-as com a doutrina da predestinação. Ele apresenta essa doutrina como discurso ortodoxo da igreja, e oferece sua percepção de Cristo como paradigma de predestinação\eleição.
Ele afirma: [...] Portanto, assim como a Igreja nasceu e cresceu fazendo uso dessas orações, assim também nasceu e cresceu nesta fé, segundo a qual a graça de Deus é concedida não de acordo com os merecimentos. (p.279)
Agostinho conclui suas reflexões colocando assento na percepção de Jesus como o arquétipo mais luminoso acerca da predestinação: [...] Não há um exemplo mais esclarecedor da predestinação do que o próprio Mediador. Todo fiel que desejar entendê-la bem, examine este exemplar e nele encontre a si mesmo. (p.283)

                                                                                            Crismário Rocha Silva
                                                                                                           Teólogo

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